“A Triunfante” de Teresa Cremisi

Em “A Triunfante”, editora narra sua infância no Oriente Médio, mudança para a Europa e traz reflexões sobre ser mulher e imigrante

A Editora Âyiné lança em maio “A Triunfante”, o primeiro romance de Teresa Cremisi – autora inédita no Brasil e considerada uma das figuras mais ilustres do mundo editorial francês. Cremisi nasceu em Alexandria, no Egito, e viveu na Itália e na França, onde trabalhou em veículos de comunicação e comandou grandes editoras, incluindo a Éditions Flammarion. Baseado na vida da editora, o romance mistura fatos reais com ficção. Cremisi descreve sua infância no Oriente Médio, a vida adulta na Europa e faz reflexões sobre suas experiências como mulher e imigrante, numa narrativa rica em alusões históricas e literárias.

Com 207 páginas, o livro é narrado em primeira pessoa e se divide em cinco capítulos. No primeiro, “De manhã cedo”, a autora retrata o Egito da década de 1940, seu gosto pela leitura e o encantamento pela Europa. Cremisi entrelaça suas experiências com fatos que marcaram a história da metade do século XX. Ela volta ao tempo para descrever sua primeira visita ao Canal de Suez, as travessias pelo Mediterrâneo e sua curiosidade inusitada por batalhas navais e navios. Descrevendo-se como “um espírito pragmático, terra a terra”, Cremisi logo revela um impulso imaginativo, aventureiro e sonhador.

“Logo compreendi que as menininhas que gostavam de batalhas navais eram raras, e sempre fui discreta quanto a meu saber marítimo e militar. Era inexplicável, não era acompanhado de um temperamento violento, nem de uma erudição utilitária, visando a algum proveito. Era um saber autodidata acumulado sem razão, nem interesse, nem finalidade. Não convinha a uma criança dos anos 1940, nem à mulher que me tornei. Ainda hoje é um conhecimento secreto. Ele me faz companhia.”

De origem italiana e naturalizada na França, Cremisi teve desde cedo uma vida cosmopolita e multicultural. Aos 17 anos, ela e sua família, que tinham uma condição privilegiada, mudaram-se para Milão durante a crise de Suez de 1956. Nos outros quatro capítulos, “Fim da manhã”, “Tarde”, “Nove horas da noite” e “Meia-noite e meia”, a autora aborda os profundos efeitos do deslocamento sobre um refugiado que não tem senso de lar ou pertencimento.

“O Oriente de minha juventude (seus valores fantasiosos, sua decomposição cativante) tinha sido pouco a pouco apagado, cancelado do mapa. Não houvera espaço para nostalgia depois de nossa instalação na Europa: mas agora as lembranças, elas próprias inertes, não se manifestavam mais. O que teria acontecido se a história tivesse esperando um pouco, duas ou três décadas, antes de nos sacudir como um cachorro sacode suas pulgas? O que eu teria me tornado?”.

Enquanto mulher estrangeira, Cremisi rejeitou a nostalgia e encontrou refúgio na literatura, no humor e na ironia. Ao longo do livro, a autora ilustra uma Europa efervescente, palco de movimentos culturais e políticos. Ela conta suas vitórias, como o primeiro emprego num jornal italiano, e também seus desafios, frustrações e angústias. Escritores como Stendhal, Proust e Conrad a ensinaram como ser e sobreviver.

“Por muito tempo não entendi que o fato de ser mulher era como ter uma deficiência; eu não tinha absolutamente parado para pensar sobre os indicativos de que era difícil vislumbrar um destino à la Lawrence da Arábia sendo do sexo feminino. Não tive, aliás, nenhum sinal de alerta sobre isso. Como meus pais tinham se esquecido de me proibir o que quer que fosse, jamais em minha vida eu tinha ouvido que eu não poderia fazer alguma coisa por ser uma menina”.

SOBRE A AUTORA
Conhecida como a dama do meio editorial francês, Teresa Cremisi (Alexandria, 1945) trabalhou na Itália em meios de comunicação, como o canal de TV Rai, os jornais L’Espresso e La Stampa e na editora Garzanti. Já na França, foi diretora editorial da Gallimard, dirigiu a Éditions Flammarion e foi diretora-geral responsável pelo desenvolvimento editorial da Madrigal, a holding que engloba tanto a Gallimard quanto a Flammarion. A Triunfante é seu primeiro romance.

Livro: A Triunfante
Autora: Teresa Cremisi
Tradução: Sandra Stoparo
Capa: Julia Geiser
Páginas: 207
Preço: R$ 59,90 

SOBRE A EDITORA ÂYINÉ
A Âyiné foi fundada em 2013, em Veneza, por dois italianos e um brasileiro. Começou com a publicação de uma revista homônima dedicada ao mundo islâmico e depois expandiu ao lançar diversos livros, dando destaque para autores da Europa Central. Com o intuito de inovar o mercado editorial no Brasil, a Âyiné prioriza escritores que estão fora do radar das grandes editoras.

A Âyiné trabalha com a ideia de coleções perenes. Atualmente, a editora tem quatro: Pre-Textos, Biblioteca Antagonista, Das Andere e Aut-aut. A primeira tem como destaque o escritor e filósofo italiano Massimo Cacciari. São cinco livros publicados trazendo ensaios e reflexões filosóficas e estéticas. Por sua vez, a Biblioteca Antagonista tem caráter filosófico, dialogando ainda com a estética e a política. Integram a coleção autores como Simone Weil, Roger Scruton, V.S Naipaul, Emil Cioran, Gertrud Stein e Marcel Proust.

A coleção Das Andere é dedicada à literatura e possui sete títulos, incluindo Alberto Manguel, Tomas Tranströmer, Paul Valéry e Joseph Brodsky. Por último, a Aut-aut reúne livros de pensadores de esquerda, como “Melancolia de Esquerda”, de Enzo Traverso, e “Psicopolítica: O neoliberalismo e as novas técnicas de poder”, do escritor sul-coreano Byung-Chul Han (Seul, 1959).

Editora Âyiné
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