Compositor Murray Schafer reflete sobre a primazia da imagem sobre o som

Buscando exemplos na natureza, na história ou em geografias distantes, autor inaugura o campo dos estudos e do design de paisagens sonoras

Imaginar um campo florido ou uma igreja construída na idade média ao fechar os olhos exige menos trabalho do cérebro humano do que preencher essas paisagens visuais com os possíveis sons a serem encontrados por lá. Por quê? Porque no decorrer da modernidade, a percepção passou a privilegiar o imagético e colocar de lado o ambiente sonoro, como explica o pesquisador e compositor canadense R. Murray Schafer, em Vozes da tirania: Templos de silêncio, lançamento da Editora Unesp.            

Os ensaios reunidos na obra exploram paisagens sonoras que o autor tentou habitar, seja de corpo presente, seja pelo exame de documentos de outros lugares e outros tempos. O principal objetivo foi tentar encontrar caminhos para uma evolução das paisagens sonoras mais satisfatórias e propícias a uma vida melhor. “Trata-se de uma série de enunciações, como os próprios sons, cada qual ocorrendo como seu próprio ponto no tempo e no espaço, alguns cuidadosamente preparados, outros mais espontâneos ou com argumentação apaixonada”, anota Schafer. “Ter arranjado as coisas em uma progressão mais linear, ter dado a elas uma metodologia, teria sido render-me à cultura visualmente dominante e a seu amor por sistemas que se põem em oposição ao incontrolável mundo dos sons.”        

Ao longo de dez capítulos, o autor busca uma miríade de exemplos na natureza, na história ou em geografias distantes de modo a compreender como a percepção humana em relação às paisagens sonoras, com os sons e os ruídos, comportou-se ao longo dos séculos. Estes escritos ajudaram a inaugurar o campo dos estudos e do design de paisagens sonoras, do qual Schafer foi pioneiro.           

“O ruído é, quase sempre, uma mercadoria, fabricada e vendida com um propósito. Seja de uma sirene, de uma motocicleta ou de um rádio, tanto faz; por detrás de cada coisa, há uma instituição que procura tirar lucro da dissonância”, escreve. “Essas são as Vozes da Tirania. Contra elas, organizam-se os Templos de Silêncio, ambientes onde os sons são notados mais facilmente por conta de sua escassez. Pensamos em um templo, mas na realidade trata-se de um estado mental, o qual é preciso resgatar no mundo moderno.” 

Sobre o autor
O compositor e autor canadense R. Murray Schafer é conhecido pelo público brasileiro principalmente por seus livros O ouvido pensante (Editora Unesp, 1991) e A afinação do mundo (Editora Unesp, 1992). De 1970 a 1975, foi professor de Estudos da Comunicação na Universidade Simon Fraser na Colúmbia Britânica, onde idealizou diversos experimentos e projetos de pesquisa. É um dos mais destacados compositores de seu país, projetando-se internacionalmente por suas posições de vanguarda. Além das obras centrais do autor, a Editora Unesp publicou também OuvirCantar – 75 exercícios para ouvir e criar música (2018).

Título: Vozes da tirania: templos de silêncio 
Autor: R. Murray Schafer
Tradução: Marisa Trench de Oliveira Fonterrada 
Número de páginas: 204 
Formato: 14 x 21 cm 
Preço: R$ 47,00 
ISBN: 978-85-393-0805-7

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