‘Corrosão’ é mais do que aspira uma obra de ficção científica

Por Eurípedes Alcântara

“O homem é o único animal consciente do tempo e o único que não conhece o presente. Vive no passado, ou, com mais frequência, no futuro. Em momentos episódicos experimenta o aqui e agora. Negando ao ato de existir, sentir, pensar o seu valor mais alto, crê em ‘felicidade’, essa prostituta, como uma ocorrência exterior e exclusiva do amanhã. Assim, dissipa o dom da vida em um permanente estado de adiamento. Alheio a si mesmo, se intui ou se descobre quando é tarde demais”.


Bastaria o parágrafo acima para “Corrosão”, de Ricardo Labuto Gondim (Editora Caligari; 292 páginas; R$ 39,00), atingir o estágio superior a que pode aspirar uma obra de ficção científica, o de ser, no fundo, uma investigação filosófica.

“Star Trek” investiga o certo e o errado na ausência de Deus. “Star Wars” encarna o eterno conflito entre o bem e o mal. “Gattaca” alerta para os riscos da manipulação genética com fins de aprimoramento da raça humana. “Blade Runners” nos encalacra com a indagação sobre, afinal, o que nos faz humanos.

“Corrosão” promove em alguma dobra do espaço-tempo o insólito choque entre a carcaça do lendário Titanic com a nave espacial Nikola Tesla para que, dos destroços, possa emergir um sentido maior para a vida. Não é coisa trivial.

Desde 1982, quando o escritor niteroiense Jorge Luiz Calife sugeriu e Arthur Clarke animou-se a fazer a continuação de “2001: Uma Odisséia no Espaço” com base no conto “2002” do brasileiro, não surgia uma novidade tão boa na ficção científica brasileira quanto “Corrosão”.

Antes de mais nada um alerta: só comece a ler se você tiver tempo, pois, muito provavelmente, não vai conseguir largar o livro antes de chegar ao fim da saga futurista da tripulação da nave espacial mineradora e de exploração Nikola Tesla, cuja construção e operação exigiram o concurso de todas as conquistas científicas do século XXII.

Nikola Tesla foi um brilhante engenheiro elétrico sérvio naturalizado americano. Ele teve o azar de ser contemporâneo de Thomas Alva Edison, criador da primeira lâmpada incandescente, do fonógrafo e da câmera filmadora. Tesla foi Garrincha para o Pelé-Edison (aliás, o craque foi batizado Edison Arantes do Nascimento numa homenagem ao inventor).

Dar o nome de Nikola Tesla à nave de “Corrosão” abarca muitos significados. Tesla passeia nervosamente hoje na corrente da cultura contemporânea digital, em meio a fatos e alucinantes fake news, como um cientista injustiçado, rebelde e incompreendido.

A lembrança de seu nome em “Corrosão” implica, entre outras coisas, na convicção do autor de que os feitos de Tesla ainda serão integralmente reconhecidos a ponto de, no século XXII, enfeixarem as tecnologias extraordinárias comparadas com as disponíveis atualmente.

A missão da nave Nikola Tesla é viajar pelo Sistema Solar até a região orbitada por Plutão, por onde, a cada 34 anos, cruza o espaço um asteróide rico em um elemento químico supercondutor a altas temperaturas, de alto interesse comercial para a “Corporação”, proprietária da nave. O método de captura do asteróide é similar à caça das baleias.

O autor o descreve recorrendo a Herman Melville. Mísseis dotados de arpões se cravariam “na rocha sólida com o ímpeto dos ferros de Acab nas carnes de Moby Dick”. Como as baleias no convés dos navios, o asteróide seria, então, “dissecado com lasers de alta penetração” de modo a separar e recuperar apenas a substância valiosa marmorizada em meio a sua composição petrosa descartável.

A nave tem o tamanho de quatro Boeings 747 enfileirados. Ela é movida e alimentada por impulsores e geradores batizados com nomes ligados à música (Tallich e Schuricht) e à teologia (Bultmann). Ricardo Gondim é teólogo e apaixonado pela música dos grandes mestres.

Robôs inteligentes cuidam das tarefas de bordo. Eles são capazes de navegar com precisão, detectar e reparar danos à estrutura da nave sem a intervenção do “hardware biológico”, a curiosa e assustadora maneira como são descritos os humanos a bordo do Nikola Tesla. São apenas seis tripulantes, mantidos em sono profundo dentro células individuais de criogenia por quase todo o trajeto.

Enquanto os humanos hibernam, o controle fica entregue ao sistema A.N.N.A. Seus circuitos interpenetram “cada polegada cúbica” da nave e dos próprios tripulantes, vigiados na intimidade de seus processos bioquímicos, inclusive os neuronais, por nanorobôs circulantes conectados.

A.N.N.A é o onipresente computador quântico dotado de superior inteligência intelectual e prática. Em suas unidades de memória e de processamento, sinapses monumentais mantém em prontidão para a sabedoria todo o conhecimento acumulado pela civilização, a ponto de se o planeta Terra desaparecer, A.N.N.A e a nave, confundidas em uma unidade absoluta, seguiriam pelo es-paço como “testemunhas da História do Universo segundo o Homem”.

O drama psicológico, científico e, principalmente, filosófico se eleva em intensidade e complexidade quando, subitamente, A.N.N.A resolve acordar de seu sono criogênico o capitão da nave, Kirill Aleksandrovich Mravinsky. Que inquietação fundamental levou A.N.N.A a recorrer à ajuda do “hardware biológico” alfa, o capitão calmo, erudito e experimentado, mas simplesmente humano?

Talvez o núcleo de inteligência artificial de A.N.N.A tenha intuído muito antes do leitor que entre as inúmeras probabilidades oferecidas pelo jogo de dados das leis universais está o absurdo. A.N.N.A tem dificuldade em processar o absurdo. Os humanos, por absurdos, lidam naturalmente com ele.

A caminho de Plutão, o absurdo se apresenta ao Nikola Tesla na região do espaço próxima de Júpiter. Os instrumentos de bordo captam uma anomalia. Anomalias precisam ser investigadas. Elas ocasionam apenas correções técnicas quando causadas por avarias nos instrumentos. Educam os tripulantes quando fruto da interpretação equivocada de dados corriqueiros.

Chamam imediatamente a atenção quando se revelam fenômenos previstos por teorias, mas nunca visualizados anteriormente. Ocorre, muito raramente, porém, serem fenômenos absolutamente inéditos cuja detecção pode derrubar teorias estabelecidas.

Todas as possibilidades precisam ser descartadas antes de se imaginar que uma anomalia possa se candidatar a ser, finalmente, aquilo que a humanidade espera ansiosamente encontrar desde quando o primeiro macaco nu olhou para o céu noturno – evidência de vida inteligente vinda das estrelas.

A anomalia que obrigou A.N.N.A a despertar o capitão Mravinsky apareceu na forma de uma nu-vem vermelha de hidrogênio compondo um anel com centenas de milhares de quilômetros de circunferência.

No centro da nuvem, em um emaranhado gasoso verde formado de metano e enxofre, os tripulantes do Nikola Tesla enxergam a anomalia com seus próprios olhos. Os sensores de A.N.N.A confirmam a visão fantasmagórica. Estão diante de algo espetacular. No coração da nuvem cósmica flutua o Titanic, o navio protagonista do mais trágico naufrágio da história da navegação humana.

Por um arcano protocolo da Corporação, na hipótese formidável de um contato extraterrestre, o capitão humano é investido de imediata precedência sobre A.N.N.A. Seu alvedrio se impõe igualmente sobre ordens vindas do controle da missão na Terra. Mravinsky decide mudar o foco da missão.

A prioridade do Nikola Tesla passa a ser descobrir como o Titanic deixou seu túmulo de 240 anos no fundo do Atlântico Norte para impor sua silhueta ameaçadora aos sentidos de Kirill Mravinsky e dos demais tripulantes, um a um, tirados do compartimento criogênico para a exposição a uma realidade enigmática mil vezes mais assustadora do que seus pesadelos.

“Corrosão”, então, mergulha no interior mais sombrio da alma, profundeza habitada pelas mesmas perplexidades que, muito antes da tragédia dos passageiros vitorianos do Titanic, já assombravam os seres humanos e, como se verá, continuarão assombrando dois séculos e meio de-pois, na sala de comando da nave espacial Nikola Tesla.