Diderot defende Enciclopédia de seus detratores em debate público

Texto gravita em torno de um diálogo travado entre o filósofo e o sobrinho boêmio do compositor Jean-Philippe Rameau, representando com maestria o ambiente cultural da Paris do século XVIII

Amplamente conhecido por integrar a monumental empreitada editorial da Enciclopédia, o francês Denis Diderot teve uma prolífica produção filosófica que extrapola este clássico do Iluminismo. Alguns de seus textos só vieram a público postumamente, como é o caso deste O Sobrinho de Rameau, lançamento da Editora Unesp, que o escritor Johann Wolfgang von Goethe classificou como “uma bomba que explode bem no meio da literatura francesa”.

O texto gravita em torno de um diálogo travado entre o EU, Filósofo, e ELE, o Sobrinho boêmio do compositor Jean-Philippe Rameau, representando com maestria o ambiente cultural da Paris do começo da segunda metade do século XVIII. E nada mais propício do que ambientar o texto no epicentro da mundanidade parisiense, o Café Regência, situado junto ao jardim do Palais-Royal. “Na metade do século XVIII, o lugar se torna a meca do xadrez na Europa. Vale lembrar que, longe de gozar da reputação que ostenta hoje, o jogo de xadrez era considerado então um passatempo fútil. A abertura do texto apresenta ao leitor a arena onde duelarão nossos interlocutores”, anota na apresentação Daniel Garroux, responsável pela tradução e notas da obra. 

Os temas do debate público variam entre o xadrez, o gênio; versam sobre o bem e o mal, sobre a música, trocam comentários ácidos sobre personagens da sociedade, abordam as desigualdades, a corrupção, a inveja. No pano de fundo maior, o texto inscreve-se no interior de uma grande querela entre os enciclopedistas e seus detratores. “Goethe foi o primeiro a apontar, em uma das notas que acrescentou ao texto, que, dentre os variados objetivos da obra, estaria o de utilizar a ‘força da espirituosidade’ para criticar os “aduladores” e “parasitas” de seu tempo, grupo no qual estariam os inimigos literários dos enciclopedistas e, especialmente, o clã antifilosófico”, acrescenta Garroux. 

“Se é verdade que toda obra cria um leitor”, continua, “o leitor implícito de O Sobrinho de Rameau seria um membro daquilo que o filósofo [Diderot] chamava de ‘tribunal da posteridade’.” Aqui, a perspectiva da posteridade é entendida como o tempo no qual tanto o filósofo quanto seus acusadores já estariam mortos e esta seria imparcial e justa por não ter nenhum interesse em favorecer um dos lados da contenda. “Sob certa ótica, a estratégia de Diderot é também fazer um testamento filosófico não de si mesmo, senão de um membro cuja franqueza permite revelar o funcionamento oculto de uma sociedade inteiramente corrompida.”

Sobre o autor – O francês Denis Diderot (1713-1784), um dos grandes homens de letras da Europa do século XVIII, foi, ao lado de Jean le Rond d’Alembert, editor-chefe da Enciclopédia. A Editora Unesp lançou a mais abrangente versão da obra magna do Iluminismo fora da França, em seis volumes.

TítuloO Sobrinho de Rameau
Autor: Denis Diderot
Tradução: Daniel Garroux
Número de páginas: 182
Formato: 14 x 21 cm
Preço: R$ 45,00
ISBN: 978-85-393-0798-2

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