Piquenique na estrada: o clássico sci-fi da União Soviética

Escrito pelos irmãos Strugátski, o livro inspirou o filme Stalker, de Andrei Tarkóvski

Animado, acelerado e simpático, Piquenique na estrada é complexo nos eventos
e imaginativo nos detalhes, além de ética e intelectualmente sofisticado.

— URSULA K. LE GUIN
Os irmãos Strugátski foram os mais famosos escritores de ficção científica da União Soviética. Piquenique na estrada, sua obra mais conhecida e elogiada, que serviu de inspiração para o cineasta Andrei Tarkóvski, volta às prateleiras pela Editora Aleph em uma edição inédita. Traduzida direto do russo e com o texto original dos Strugátski, traz duas leituras complementares: um prefácio assinado por Ursula K. Le Guin, autora de A Mão Esquerda da Escuridão, e um posfácio escrito pelo próprio Bóris.

Bóris, no posfácio, relata os percalços que ele e o irmão enfrentaram para o livro ser impresso. Publicado pela primeira vez em 1972, depois de oito longos anos de modificações e cortes – os editores consideravam algum trechos violentos ou com linguagem imprópria –, a obra chegou aos leitores bastante retaliada, a ponto de os autores se recusarem a ler a versão final. O trabalho original só foi publicado com o fim da União Soviética.

“… (os editores) realmente pensavam assim: que a linguagem tinha que ser, na medida do possível, insossa, lisa e envernizada, e, em hipótese alguma, grosseira; que a ficção científica deveria ser de fato ficcional e jamais poderia se aproximar da dura, palpável e cruel realidade; que os leitores, de modo geral, tinham que se ver protegidos do impacto com a vida real: que deviam viver de sonhos, fantasias, ilusões e de lindas ideias efêmeras”, relata no posfácio.

O outro texto presente na edição é o trecho de uma resenha do livro escrito por Le Guin no ano em que o livro foi publicado em inglês pela primeira vez. Nele, a autora elogia Piquenique na estrada e conta que escrever um texto falando bem de uma ficção científica soviética foi um pequeno ato político no contexto da época. “A FC se presta facilmente à subversão imaginativa de qualquer status quo. Burocratas e políticos, que não podem se dar ao luxo de cultivar a imaginação, tendem a presumir que são só bobagens e armas de raios, coisas de criança”, escreve.

A publicação ganhou atenção por ser escrita num período de Guerra Fria e, ainda assim, fazer críticas ao totalitarismo, armas nucleares e problemas sociais. Essa combinação chamou a atenção do cineasta Andrei Tarkóvski, que então produziu o filme Stalker. Inspirado em Piquenique na estrada, o longa foi lançado em 1979 com roteiro feito pelos próprios Strugátski.

Além disso, em 2001, a obra ganhou sua versão em game. O jogo S.T.A.L.K.E.R, assim como o livro, fala sobre as zonas de visitação dos alienígenas e faz um paralelo com o desastre de Chernobyl.

AS BUGINGANGAS DOS ALIENS 
Na trama de Piquenique na estrada, a cidade de Harmont está mudada. Desde que foi palco de uma das várias invasões alienígenas na Terra, o clima é de incerteza e medo. Os visitantes anônimos não se comunicaram com os terráqueos, e assim deixaram a humanidade com questionamentos aterradores. Nos locais onde eles estiveram, agora zonas proibidas, fenômenos perigosos continuam acontecendo. O trabalho ilegal de Redrick Schuhart, e de todos os outros stalkers, é invadir esse território para coletar e depois comercializar estranhos e misteriosos objetos trazidos de mundos distantes.

O AUTOR
Nascidos em Leningrado, os irmãos Arkádi e Boris Strugátski foram os mais famosos escritores de ficção científica da União Soviética. Antes de começar a escrever, Arkádi (1925-1991) trabalhava como tradutor e intérprete de inglês e japonês e Boris (1933-2012) como astrônomo e engenheiro de computação. Entre 1958 e 1991 escreveram, em parceria, mais de 20 romances e novelas, além de diversos contos e peças de teatro. Um de seus romances mais famosos,Piquenique na estrada, foi adaptado para o cinema por Andrei Tarkóvski em Stalker. Ainda hoje, a obra dos irmãos Strugátski é aclamada na Rússia e nos países do leste europeu, em parte graças às críticas aos governos totalitários.

DADOS DO LIVRO
Piquenique na estrada
Autores: 
Boris e Arkádi Strugátski
Tradução: Isadora Prospero e Tatiana Larkina
Preço: R$59,90
Número de páginas: 320