Uma História pelo Meio

Uma história pelo meio é relançada pela Editora Positivo. Obra infantil de Elvira Vigna ganha ilustrações de Raquel Matsushita

A Editora Positivo lança, em novembro, “Uma história pelo meio”, obra infantil de uma das maiores escritoras contemporâneas brasileiras, Elvira Vigna. Publicado pela primeira vez em 1982, o texto ganha ilustrações de Raquel Matsushita, que usa três técnicas diferentes para diferenciar as narrativas que a história propõe.

“Uma história pelo meio” já começa pelo meio – afinal, como lembra a autora, ninguém sabe como as coisas começaram. Deixando de lado o começo, ela dá início a uma história que se desdobra em três, interligadas entre si, nas quais os personagens se entrelaçam de maneira livre. Uma história entra na outra e o narrador transita entre as narrativas.

O livro começa e termina com páginas em branco, que também aparecem no meio da leitura e instigam o leitor a criar sua própria história, dando um novo começo ou até mesmo um novo fim para a narrativa. O texto provocativo de Elvira Vigna transita entre o real e o imaginário e a costura de histórias nos atenta para questões da natureza, como o comércio ilegal de aves e como isso afeta não apenas o meio ambiente, mas toda uma cadeia alimentar, que traz consequências para diversas outras áreas.

De acordo com a coordenadora editorial da Editora Positivo, Cristiane Matheus, o livro é indicado para ser intermediado por um adulto a crianças em processo de alfabetização, de forma que haja uma interação entre eles, uma troca rica de impressões, de começos e fins para a narrativa. “Da mesma forma, a obra também é indicada para crianças maiores, que podem viajar no enredo criado não só pela autora, mas por si própria, imaginando inúmeros desfechos e relacionando cada narrativa à sua própria realidade”, ressalta.

Ilustrações representam mudança de narrativa
A ilustração de Raquel Matsushita é uma história à parte. Ela não adota o ponto de vista da protagonista que, aliás, nem aparece em seus desenhos. A própria Elvira Vigna, também ilustradora, dizia que “a ilustração não deveria repetir o texto, mas reinventá-lo”. O projeto gráfico e as ilustrações de “Uma história pelo meio” se alinham com a mesma liberdade da narrativa em três tempos. Ambos reforçam de maneira visual essa característica do texto.

Para a narrativa principal, foram combinados desenhos de clipart com objetos reais, como madeira, folhas, sementes, lápis, ovo, palha, arame, quadro de bicicleta, etc. “O conceito dessa colagem foi representar o real, com uma certa dose de irreverência, que é uma das características desse texto da Elvira. Por exemplo, para representar uma árvore, escolhi a madeira das caixas de frutas da feira e lápis. Ao utilizar objetos que um dia foram realmente árvore e se transformaram em outra coisa, abordei a noção do tempo (passado e futuro), que se entrelaçam no hoje, que é o presente da leitura”, conta Raquel. Os objetos foram montados numa prancha e clicados pelo fotógrafo Daniel Monteiro, com paleta de cor fiel à realidade e cores equilibradas.

Na segunda narrativa, as imagens foram desenhadas com carimbo, uso de texturas, num estilo que se distancia da realidade, com proporções e traços livres. A paleta de cor é intensa, com cores saturadas em alto contraste. Já na terceira narrativa, as ilustrações são vetoriais, com uma linguagem gráfica, sem texturas, com o uso de cores chapadas. Nesse estilo, a paleta de cor é reduzida e fria. “No decorrer da narrativa, o desenho transita de uma técnica à outra, na mesma página, para acompanhar o entrelaçamento das histórias”, ressalta a ilustradora.